Jovens, conectados na internet e cheios de planos profissionais para o lugar onde vivem: a roça. Esse é o resumo da história de uma turma do Baixo Sul baiano que, diferente de gerações anteriores, não vê na cidade grande a única saída para um futuro próspero. “Muitos primos e amigos foram, mas estão em Salvador trabalhando em supermercado, descarregando caminhão. Eu quero é trabalhar para mim”, avisa Valdeir Gonçalves Cabral, 18 anos, que é responsável por plantações de cacau e seringueiras na cidade de Ituberá.
Miguel Ramos, 19, de Presidente Tancredo Neves, tem pensamento parecido. “Antes, eu olhava para a terra e pensava que não dava dinheiro, só prejuízo. Hoje, não penso mais em sair daqui”, garante ele.
Alysson da Paixão, 18, que mora na região de Nilo Peçanha, viu os irmãos seguindo para trabalhar na construção civil na capital e sofrerem com o desemprego. Ele? Quer ser líder comunitário e abrir um comércio com produtos agrícolas tirados do quintal de casa.
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(Foto: Divulgação) |
Valdeir, Miguel e Alysson estão ligados não apenas pelo sonho de se manter na roça, mas por terem a mesma oportunidade para realizá-lo: são estudantes de diferentes Casas Familiares Rurais instaladas no Baixo Sul. As unidades são Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) apoiadas por instituições privadas como a Fundação Odebrecht e a Mitsubishi, que oferecem formação técnica integrada ao ensino regular com o objetivo de apoiar os estudantes não só a colocarem a mão na terra, mas também tirarem dela o suficiente para manter um padrão de vida confortável no interior do estado. Desde 2006, 628 alunos se formaram nas casas familiares e, atualmente, há 313 em formação.
Como funciona
Morar no campo, ser filho ou filha de agricultores familiares e ter terra – que pode ser própria, arrendada ou área ociosa com autorização para ser aproveitada – para pôr em prática o que aprende na escola estão entre os critérios de seleção. “Ter ou não a terra não é um limitante. Sempre dá um jeito”, pondera Deraldo Nascimento Neto, engenheiro agrônomo e professor de Física que atua como monitor em Presidente Tancredo Neves.
O método de ensino é conhecido como Pedagogia da Alternância. Nesse modelo, os alunos passam uma semana na unidade escolar e outras duas em casa, aplicando os conhecimentos na terra. Eles estudam o ensino médio regular, com disciplina na Base Nacional Comum, e também uma formação técnica. As casas têm focos específicos na formação: em Presidente Tancredo Neves e Igrapiúna se formam técnicos em Agronegócio; já em Nilo Peçanha viram técnicos em Florestas.
Os estudantes ajudam na organização das casas, com apoio de uma equipe técnica. Tomam café às 6h30 e, às 7h, já vão para a aula que segue até 21h45, com intervalos.
Resistência
Os alunos contam que há preconceito dos colegas de idades próximas, que não estão no projeto, relacionadas ao trabalho na roça. Chegam a ser chamados de doidos, segundo relataram ao CORREIO. Havilla Silva, 15, sempre foi vaidosa e por isso teve que lidar com o descrédito de algumas pessoas com sua decisão de atuar na roça. “Isso não quer dizer que a gente não vai estudar. Vai muito. A gente pensa em viver e viver bem, no campo. E isso não tem nada a ver com esse meu jeito (‘patricinha’)”, detalha. “Vai ser uma patricinha do campo, agora”, brinca o colega Adécio.
Ao longo de três anos de curso, eles debatem 45 temas, chamados de 45 alternâncias, que são as etapas da formação. Os temas do ensino médio são adaptados aos conteúdos técnicos. “Estamos debatendo o tema Nossa Terra Solo, em Biologia. Vamos entender os sistemas vivos da terra. Em Química, as reações químicas envolvidas no trabalho com adubação. Usamos os exemplos de acordo com a prática dos alunos”, explica Deraldo.
Avanços
O trabalho orientado no campo tem ajudado a melhorar a renda de muitas famílias na região. No caso dos estudantes das Casas Rurais do Baixo Sul, há garantia da venda de produtos da agricultura familiar através do fortalecimento das cooperativas, que têm contratos com grandes redes varejistas da Bahia e de outros estados. “O resultado produtivo das três turmas de Presidente Tancredo Neves, no último ano, foi de R$ 1 milhão. Isso do que foi colhido e vendido. A produção de mandioca na região subiu de 12 toneladas por hectare para 25, na média”, ilustra o instrutor.
Quando concluem o curso, os alunos têm a oportunidade de buscar financiamento através dos programas vinculados aos Fundos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA), entre eles, o Tributo ao Futuro, da Fundação Odebrecht. Com uma espécie de monografia, eles detalham o que desejam fazer e o financiamento custeia, por exemplo, horas de trator, os adubos, etc. Colocar a mão na terra e administrar a plantação é por conta da família. Quando retornam para casa por duas semanas, os jovens estudantes das Casas Rurais precisam aplicar os conhecimentos na propriedade da família e, no começo, têm de convencer os pais a apostar em novas técnicas, o que gera alguns conflitos, segundo relatos dos estudantes.
Novas técnicas
“Meu pai dizia que o que ele aprendeu servia para mim, mas o que eu aprendia era para mim e para os meus filhos”, conta a estudante Patrícia Nascimento dos Santos.
Para vencer esses obstáculos, alguns alunos precisam do apoio de monitores, que visitam as propriedades na semana em que os jovens estão em casa. “Hoje, meu pai percebe que o que eu falo é importante e trabalhamos juntos no reflorestamento nas proximidades dos rios depois que percebemos que o rio que passava por nossa terra já estava pedindo socorro”.
De acordo com os monitores, a principal mudança que os jovens conseguem implantar em casa é o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), ignorados por muito tempo pelos pais e avós. “As mudanças chegarem nas propriedades pelos jovens têm um significado diferente, não são os monitores que chegam para ensinar para os avós, são eles que aprendem a conversar com os familiares”, afirma o monitor Deraldo. Thaisa Rebeca diz que os avós sempre desconfiam do resultado. “Aí mostramos que não vamos mudar tudo, apenas dar um jeito de melhorar o que já é feito”.
*O REPÓRTER VIAJOU AO BAIXO SUL A CONVITE DA FUNDAÇÃO ODEBRECHT.
Fonte: http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/jovens-descobrem-como-empreender-no-campo-e-optam-por-permanencia/?cHash=51b04d4520be97af82fcc50174386a6b Correio da Bahia